A revolução dos pedestres - Sérgio Malbergier

A revolução dos pedestres
por Sérgio Malbergier (colunista da Folha)

 Fonte: Folha Online

"Antes tarde do que nunca, a Companhia de Engenharia de Tráfego de São Paulo começou finalmente a punir com algum rigor motoristas que não respeitam a faixa de pedestres. Causou uma revolução nas ruas da cidade. 

 A faixa de pedestre no Brasil é a frente mais ativa do que no século passado chamavam de luta de classes. 

Pobres andam a pé, ricos vão de carro. 

Enfrentam-se todo dia na faixa, e o automóvel sempre prevaleceu. Pedestre inclusive ganhou sentido negativo nos dicionários da elite.

 No Houaiss, significa "sem brilho, rústico, modesto". Mas a luta aqui ficou mais equilibrada. Motoristas agora dirigem atentos à faixa, até com um inédito medo dos pedestres. 

Que, após décadas de opressão violenta, superam sua submissão natural e esticam o braço para deter os carros na faixa. É um gesto épico, milagroso, como Moisés abrindo o mar. Toda vez que um carro para, o país avança. 

Parece pouco, mas o desrespeito ao pedestre é um dos sintomas mais óbvios de nosso atraso, do quanto a cidadania pode ser usurpada violenta e impunemente por tanto tempo no Brasil. Basta as autoridades fazerem o mínimo que se espera delas, que a população apóia, adere, propaga. 

Porque somos muito melhores que o sistema que nos governa. Convivemos com tanta coisa que não devemos. A excessiva tolerância brasileira é ao mesmo tempo nossa maior virtude e nosso maior defeito. 

Fala-se muito do novo "poder popular", das novas tecnologias de comunicação que propagam a política de baixo para cima, alienando partidos e organizações tradicionais, criando novas formas de mobilização e poder em torno de grandes e pequenos temas. 

 As revoltas árabes, os protestos populares na Europa e agora nos EUA abriram essa trilha. E é só o começo. 

 No Brasil, temos uma conjuntura completamente diferente. Sem ditaduras nem crises econômicas, nossa democracia pariu um novo ciclo de desenvolvimento baseado na inclusão de dezenas de milhões de brasileiros no mercado consumidor.

Essa ascensão econômica, com pleno emprego e aumento de renda, amortece o senso crítico e foca a gente no trabalho. Tanto que a primeira tradução da onda mundial de protestos jovens no Brasil foram as marchas da maconha num país com tantas outras questões relevantes. 

 Mas evoluiu. Agora o alvo da mobilização nacional e digital é a luta contra a corrupção, a causa mais abrangente e óbvia no Brasil de hoje. 

 No feriado de ontem, milhares de pedestres brasileiros tomaram ruas do país para protestar contra a corrupção epidêmica. 

Não teve partido, sindicato, mídia, celebridade que apoiasse a justa causa. Mesmo assim, segundo as estimativas divulgadas, ao menos 20 mil marcharam por Brasília, 2 mil em São Paulo, 2 mil no Rio, e centenas em outras cidades, muitas do interior, em mais de 18 Estados. 

Ainda é pouco, mas é o começo. 

 Minha mãe, septuagenária (não espalhe que ela não gosta), marchou com duas amigas e voltou feliz e emocionadíssima do programa cívico. De fato, era uma multidão de bem-intencionados. 

 No dia 15 de novembro haverá outra marcha contra a corrupção pelas cidades brasileiras. Artistas e intelectuais fariam bem em aderir e divulgar. 

 Vá e convença alguém a ir. Será divertido e relevante. A revolução virá a pé. Somos todos pedestres.
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