Dez verdades que impedem a melhoria do Trânsito - Verdade n° 01

DEZ VERDADES QUE IMPEDEM A MELHORIA DO TRÂNSITO
por Julyver Modesto de Araujo

Trabalho com trânsito há treze anos, talvez um tempo muito curto frente a outros profissionais que se dedicam há muito mais tempo às questões que envolvem a convivência social, na utilização da via pública. Neste tempo, porém, tive a oportunidade de conhecer, de perto, o “ser humano motorizado”, exercendo desde a atividade de fiscalização de trânsito, nos meus primeiros anos de atividade profissional, como Tenente da Polícia Militar, no policiamento de trânsito da área central da capital paulista, até a função de Conselheiro do órgão máximo de trânsito no Estado, julgando os recursos de trânsito em segunda (e última) instância.

Já vi muito contingente de trânsito, já socorri muita gente ferida, já recolhi pedaços de corpos mutilados, já cobri de jornal pedestre atropelado e já tive que ligar para parente de vítima (sem exagero e não exatamente nesta ordem). Também autuei muito motorista infrator, já removi muito veículo irregular e já prendi muito criminoso. Cansei de ouvir desculpa de infrator de trânsito: “foi só um minutinho”, “juro que foi a primeira vez”, “eu não costumo fazer isso”, “já estou saindo” etc etc etc.


CONTINGENTE DE TRÂNSITO: todo evento ocorrido entre veículos, pessoas e/ou animais, durante a utilização da via pública, em que se verifique a ocorrência de fatos naturais, associados entre si ou a uma ação ou omissão humana, de que resulte dano patrimonial, lesão ou morte. Trata-se de um neologismo, em substituição à expressão “acidente de trânsito”, cuja proposta pode ser lida em http://www.abptran.org/modules/news/article.php?storyid=57.



Desde que comecei a me dedicar à produção de conhecimento na área de trânsito, estudando, escrevendo e ensinando, já ouvi muito discurso inflamado, muita promessa de mudança e muita intenção boa, de gente igualmente boa.

Só não consegui entender, ainda, porque as coisas não melhoram.

Muito se fala em educação, em engenharia e em fiscalização, como os pilares das soluções para a gestão do trânsito. Muito se cobra a atuação do Poder público e, com muito mais frequência que se deveria, altera-se constantemente a legislação de trânsito, para buscar condições melhores de trânsito. E onde está a falha? O que nós, profissionais do trânsito, ainda temos que fazer para que nosso árduo trabalho não seja em vão?

É preciso, por certo, mais que atitude. É preciso conscientização! E não me refiro à conscientização da sala de aula, com a esperança de mudança de comportamento. Trato aqui de se buscar verdadeiramente a nossa própria consciência do mundo que nos cerca, no puro significado de compreensão das coisas, como são e porque são.

Cheguei à conclusão, com essa inquietação constante, de que, por mais sangue e suor que sejam derramados, nada vai mudar, enquanto o homem não perceber que conviver bem no trânsito não é apenas saber dirigir e cumprir as leis.

Ainda que a atuação do Poder público seja exemplar ao extremo, na gestão do trânsito, persistirão os conflitos viários, continuarão a existir infratores de trânsito e pessoas terão suas vidas interrompidas nos contingentes de trânsito. E por quê?

Não se trata de ser pessimista em exagero, mas vejamos a problemática da forma mais isenta que nos seja possível, por mais que a paixão daqueles que trabalham na área nos faça erguer o véu da confiança e credibilidade em nosso próprio trabalho, como se apenas o nosso ofício e dedicação fossem suficientes para resolver os problemas do trânsito.

Deixemos de lado, por um momento, o conceito técnico de trânsito, previsto no artigo 1º, § 1º, do Código de Trânsito Brasileiro e resumido em seu Anexo I: movimentação e imobilização de veículos, pessoas e animais nas vias terrestres. Do ponto de vista de fenômeno social, o que é o trânsito senão o palco onde as pessoas representam os mais diferentes papéis, convivem, travam a disputa por espaços, deslocam-se aos seus objetivos, administram os seus conflitos e põem à prova a sua (im)paciência e a sua (in)tolerância? Não quero me atrever a traçar um perfil psicológico ou sociológico deste fenômeno, posto que não é minha área de formação acadêmica, mas conclui, pela experiência, que existem algumas verdades que impedem a melhoria do trânsito, as quais descrevo a seguir.

A obviedade de algumas delas pode vir a desmerecer a atenção do leitor, mas ressalto que, é justamente por serem óbvias, que não nos damos conta de sua importância. Enquanto não estivermos conscientes destes fatores, de nada adianta clamarmos pela melhoria do trânsito, pois não existe passe de mágica que remova totalmente os obstáculos pré-existentes e não resolvidos.

1ª VERDADE
EXISTEM MOTIVAÇÕES DIFERENTES PARA MUDANÇA DE COMPORTAMENTO

Cada um de nós tem uma história própria de vida, marcada pelas suas conquistas e derrotas, pela sua formação pessoal, familiar, religiosa e social, o que faz com que cada pessoa tenha seus próprios motivos para mudar um comportamento já adotado.

A educação recebida na família, por exemplo, constitui um importante ingrediente para que a pessoa respeite (ou não) o interesse coletivo, aceite (ou não) as regras sociais, entenda (ou não) a vigilância do Estado. Para aqueles que não foram criados com o senso do cumprimento de regras, de nada vale a existência da lei, sendo particularmente inócua a fiscalização estatal.

O trânsito está cheio de exemplos de pessoas que descumprem sistematicamente a legislação de trânsito, que têm praticamente uma coleção de multas e pontos registrados em seu prontuário.

Alguns motoristas mudam quando são multados, outros pelo medo de serem, alguns tanto porque perderam alguém próximo em um contingente de trânsito, outros pelo medo de perderem. Cada um tem sua própria motivação.

O educador de trânsito não pode achar que suas palavras bonitas serão suficientes para tocar o coração de quem as ouve e, com isso, passarem a ser bons motoristas. As aulas teóricas, nos Centros de Formação de Condutores, podem exagerar na utilização de vídeos de atrocidades, de vítimas fatais, de absurdos no trânsito, que, para muitos, isso não vai passar de diversão (quem é instrutor sabe disso: tem aluno que pede para assistir a tais cenas).

Nosso discurso é, muitas vezes, vazio: quem nunca cometeu uma infração de trânsito? Nós, profissionais do trânsito, sabemos, como ninguém, quais são as regras a serem seguidas e quais são as consequências (fáticas e de Direito) para quem não as cumpre. Mas será que todos nós seguimos, à risca, as normas viárias? Quantas vezes, falamos de segurança do trânsito e, ato contínuo, adotamos um comportamento inseguro?

Aliás, é até difícil ser o “certinho da turma”. Quem atravessa sempre pela faixa de pedestres, a ponto de andar até o final do quarteirão, para acessá-la, ou utiliza o cinto de segurança no banco de trás, a ponto de cobrar do motorista que o cinto não está disponível, sabe bem do que estou tratando. A realidade é que o grupo social comporta-se de maneira desregrada e o que é certo passa a ser o anti-social.

Muita gente que não percebe a necessidade de um comportamento seguro no trânsito, transforma-se quando tem uma vítima na sua família. O morto no contingente de trânsito, que era uma simples estatística, passa a ter identidade e, aí sim, desperta a consciência de quem está próximo.

Interessante notar que as pessoas que são vítimas dos contingentes de trânsito, com morte ou lesão de familiares, passam a vociferar contra a impunidade, clamam pela Justiça, criam Associações, apelam ao Poder público por ações efetivas para a melhoria da segurança, mas somente exibem tal comportamento, na maioria das vezes, porque sentiram de perto a violência do trânsito.

Da discussão para a ação, não podemos nos enganar, o caminho é mais longo do que se imagina. Apenas a existência da lei não é suficiente para que a vida em sociedade siga todas as regras estabelecidas para a boa ordem pública. Nem mesmo a sua fiscalização constante o é. Se colocarmos a tábua de salvação nos agentes fiscalizadores, reconheceremos a falência do próprio homem, que, como ser social, abre mão de sua liberdade para viver em sociedade, já o dizia Rousseau.


Jean Jacques Rosseau foi uma das figuras mais marcantes do Iluminismo Francês e é considerado pai da igualdade civil. Sua frase “O homem nasce livre”, da obra “O Contrato social” veio a se tornar o primeiro artigo da “Declaração dos direitos do homem e do cidadão”, aprovada em virtude da Revolução Francesa de 1789.


O fato é que as convicções individuais constituem o alicerce para a compreensão de cada pessoa e o ponto de partida para a mudança de seu comportamento – ou se aceita mudar, porque se acredita que isso é o melhor para si, ou se alteram as próprias convicções individuais, para uma nova visão de mundo. Este é o trabalho do educador de trânsito: entender que as pessoas não são iguais e abandonar as velhas receitas, buscando, acima de tudo, fazer com que cada um encontre a sua própria motivação.


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